
Um cão da raça buldog francês, macho, 3 anos de idade, 11,5 kg, demonstrou perda súbita da capacidade de locomoção no membro pélvico. Na ocasião o animal demonstrava presença de reflexo flexor cruzado, anal e aumento dos reflexos patelares, flexores e gastrocnêmios bilateralmente. A reação postural proprioceptiva era ausente no membro pélvico também bilateralmente e a dor superficial era diminuída. A micção e defecação estavam normais. À apalpação da coluna vertebral o animal reagia na região entre as últimas vértebras torácicas e primeiras vértebras lombares. Exames laboratoriais (hemograma, urina, uréia e creatinina) estavam normais.
O diagnóstico clínico neurológico foi Síndrome Toracolombar e a localização clínica da lesão foi definida entre T3 e L3. O exame radiográfico preliminar revelou existência de hemivértebras em T6-T7; este achado coincide com a literatura que relata como ocorrência comum as hemivértebras em animais desta raça provocando em muitas ocasiões compressões espinhais levando às síndromes toracolombares.
Optou-se num primeiro momento pela terapêutica conservativa utilizando como tratamento corticoteróides (prednisolona), vitaminas do complexo B e E, ácido aminocapróico e repouso em gaiola. Após 7 dias com esta terapêutica, não foram observadas melhoras sendo portanto reavaliado o tratamento.
O animal foi então submetido ao exame mielográfico, através da mielografia cervical, utilizando-se como meio de contraste o ioversol, na dose de 0,5 ml/kg. Após punção no espaço atlanto-ocipital, antes da aplicação do contraste, foi colhido líquor para análise laboratorial, procurando assim afastar outras causas detectáveis através deste exame. Através da mielografia concluímos que as hemivértebras não exerciam compressão sobre a medula espinhal, e embora o contraste tenha mostrado ligeira obstrução entre L1 e L2 optou-se por uma nova mielografia, com contraste entre L4-L5 buscando uma melhor definição da imagem da lesão. Este novo exame permitiu concluir que existia uma compressão espinhal entre as vértebras L1-L2.
O animal foi então encaminhado para procedimento cirúrgico de hemilaminectomia com o objetivo de promover descompressão espinhal através da retirada do conteúdo do disco intervertebral do canal medular. A cirurgia foi realizada por abordagem dorsal, anestesia por halotano, sendo retirado material fibrinoso aderido à medula espinhal. Na ocasião da realização da cirurgia o animal apresentava as seguintes alterações:
Após a cirurgia o animal apresentou perda dos reflexos pélvicos espinhais durante 3 dias e incapacidade para micção voluntária durante 4 dias, sendo portanto sondado de 8 em 8 horas para completo esvaziamento vesical.Nos dias seqüentes o animal demonstrava sinais do controle da micção, embora alternasse momentos de retenção, exigindo assim atenção constante da enfermagem.
O pós-operatório consistiu de antibioticoterapia (enrofloxacina), vitaminas do complexo B e E. Os pontos cirúrgicos foram retirados 15 dias após a cirurgia e sessões leves de fisioterapia foram mantidas durante todo o tratamento (pré e pós-cirúrgico).
Passados 15 dias da cirurgia o animal mantinha de forma constante a capacidade de micção e demonstrava tentativas de movimentação e acomodação voluntária dos membros pélvicos. Gradualmente o animal manifestava retorno das reações posturais e 45 dias após a intervenção cirúrgica o animal apresentava deambulação pélvica com pequenos déficits posturais; os reflexos espinhais se mantinham normais e as demais funções neurológicas estavam normais.
De forma resumida podemos enumerar as seguintes etapas do quadro relatado: